Um pequeno texto sobre a Paixão de Cristo.

Refletindo sobre a Paixão

Nesta sexta-feira, os cristãos relembram a morte de Jesus Cristo. A meu ver, a reflexão que somos chamados a fazer deve ser especialmente sobre a simbologia desta narrativa. Duas interpretações possíveis, em especial, provocaram a produção deste texto.

Pilatos: o Estado omisso e o discurso “conciliador” a serviço dos poderosos

O primeiro aspecto é a identidade entre as atitudes de Pôncio Pilatos, representante do Império Romano na Judéia, e as ações dos nossos governantes.

Pilatos diz, primeiramente, que não encontra culpa em Jesus. E, em vez de fazer valer a suposta e etérea “vontade geral” e as leis que diz defender e em nome das quais exerce seu poder, ele procura um “jeitinho” de se entender com os líderes religiosos judeus, propondo que se soltasse Jesus segundo o costume de soltar um prisioneiro na Páscoa.

Diante da pressão da massa de judeus pedindo a crucificação, Pilatos titubeia e lava as mãos, num gesto simbólico que até hoje é lembrado como sinal de omissão. Finalmente, cedendo às pressões, não se envolve diretamente na crucificação mas permite que os judeus a realizem.

É possível fazer um paralelo entre as condutas de Pilatos e as de nossos governantes.

O que fazem os Pilatos de terno todos os dias, se não “lavar as mãos” diante das nossas mazelas? E propor “jeitinhos”, ao final cedendo diante das pressões dos poderosos entes paraestatais, os lobistas, políticos de “carreira”, empresários “influentes”?

Cristo e a realização da vida no sacrifício pelo Outro

A história de Cristo nos deixou um exemplo de humanidade radical. Não houve homem mais humano que Ele. Como disse Leonardo Boff, humano assim como ele foi, só podia ser Deus mesmo.

Isto porque Sua história nos mostra que a realização de nossas vidas não está somente na satisfação de desejos aparentes, imediatos e individuais. Ao contrário, a verdadeira realização de nossas vidas está em entregar-se ao Outro. Nisto consiste o amor mais radical – a entrega sem espera de recompensa. Não se trata de anular suas próprias vontades, é mais sublime que isso: é ter a vontade de servir.

Estava em dúvida sobre o que postar primeiro no blog. Mas aí vai um texto sobre os 25 anos da Nova República:

25 anos de Nova República: o que mudou?

Arthur Moreira/Tadeu Guerzet*

Em poucos dias, o Brasil terá chegado a um marco indubitavelmente histórico. Chegaremos a 25 anos de Nova República. É um bom momento para discutir os rumos do Brasil. Ainda mais com as eleições se avizinhando. E a Nova República é um bom ponto de partida.

Na época, o PT fez críticas importantes a este processo, hoje renegadas. Reputamos algumas importantes. É preciso reconhecer, a transição foi “por cima”, sem superar os privilégios militares e muito menos afastar do poder os civis que estiveram ombro a ombro com os generais e enriqueceram às custas do Estado, ou seja, do povo. É preciso reconhecer, a Constituição não se aplica na integralidade porque tenta servir a dois senhores, tenta agradar pequenos e grandes (e a corda arrebenta, para variar, do lado mais fraco). Tudo isso é importante lembrar, para acertar contas com o passado. Essa é a melhor forma de pensar um futuro melhor – aprendendo com as experiências passadas.

Tudo isso hoje passa meio despercebido. Os métodos se tornaram menos grotescos. Hoje há outras formas de dominar. O ônibus cheio que aumenta a passagem de ano em ano, o operário-presidente e seus “heróis” empresários metidos em nebulosas transações, o trabalho corrido, as infindáveis prestações de nossas geringonças e badulaques…

O importante disso tudo é pensar, à luz desta rica história, como anda nossa liberdade. E aí toma importância um silencioso fenômeno: o “endurecimento democrático” que passamos. Trata-se de um curioso fenômeno. Após sucessivas decepções, o povo cansou e caiu no “canto da sereia” – “desistiu” da política. E isso tem levado a uma assombrosa e vertiginosa redução da pauta política discutida no país.

A “americanização” da nossa política, que transformou PT e PSDB em novas e fajutas versões dos liberais e conservadores do tempo de Império, tem nos dado a impressão de que não se pode mais discutir o modelo econômico do país. Que não se pode governar sem se corromper e sem “comprar” com dinheiro alheio apoio dos mesmos parlamentares do tempo da ditadura. Que não há o que fazer diante da crescente violência em que vivemos imersos. Que não há outra solução para a falta de segurança se não criar mais e mais cadeias.

Capixabas, podemos e devemos discutir estas questões. Se os candidatos de sempre não fizerem, façamo-lo nós mesmos! Exijamos nós a Reforma Política, porque essa questão pra eles é como o problema da seca nordestina: dá boa promessa de campanha, e por isso mesmo tem que ficar do jeito que está – na eleição que vem, promete-se de novo…

A política precisa mudar. Mas não são os eleitos de sempre que farão isso. Acreditemos no nosso compromisso com a democracia. Com a palavra, você, capixaba.

*Arthur Moreira é estudante de Direito da UFES e Secretário de Formação Política da Executiva Estadual do PSOL/ES.

Tadeu Guerzet é membro do Diretório Estadual do PSOL, ex-Coordenador Geral do DCE-UFES.

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